domingo, 5 de julho de 2009

Não vai coisa nenhuma, Tcheco!


A leitura do blog de Cristian Bonatto neste sábado mostra bem o que uma derrota pode causar em cabecinhas menos preparadas. Em um post intitulado “Juntando os cacos”, o autor afirma o seguinte acerca do capitão gremista:

“Sua permanência no Olímpico não é mais possível pelo simbolismo que adquiriu de um time, uma atitude, uma postura e uma forma de comportamento que não podem continuar iguais. Tcheco tem a procuração para representar este Grêmio que urge mudança. O desgaste com a torcida parte daí. Imaginamos por duas vezes a foto de Tcheco ao lado das imagens de De Leon e Adílson levantando Libertadores e acabamos tendo que ouvir sempre dele os pedidos de desculpas pelos tantos “quase lá” deste Grêmio pós 2005.

Se foi a imagem das mortes na praia, também foi o símbolo do “como este time chegou até ela?”. Uns o mandarão seguir o caminho das sombras, a maioria vai oferecer a porta da frente”

O sr. Bonatto é estudante de publicidade. É possível notá-lo claramente pelas fotos que ilustram o blog. A primeira delas, a maior, é um vidro rachado. É uma das janelas do quadro social do Grêmio, atacada por torcedores irritados pelo tratamento desumando dado pela direção aos sócios antes do jogo da última quinta-feira. A segunda, ao lado, é uma prova indiscutível de falta de cavalheirismo e bons modos. O leitor do Blog Perspectiva há de reconhecê-la de pronto: é a foto do post Trapo do Tcheco, que registra o processo criativo da nossa querida Madame Y, desenhista, pintora e integrante deste blog, ao pintar um trapo em homenagem ao capitão gremista. O sr. Bonatto não faz referência de onde conseguiu a foto, não cita fonte e nem presta esclarecimentos. Em suma: não faz nada do que as regras básicas da boa convivência na Web costumam receitar.

A combinação das duas fotos tem um claro objetivo, como toda combinação de fotos preparada por um publicitário: mostrar que Tcheco é o epicentro da crise, a causa dos males da equipe, o símbolo de derrota, de um time perdedor, de uma época marcada pela falta de títulos. Tcheco traz consigo, em seus lançamentos precisos, em suas cobranças de faltas laterais e de escanteio salvadoras (o gol de Réver contra o Cruzeiro nasceu de uma delas), em sua doação em campo e em sua notável capacidade de organizar o meio campo uma espécie de maldição que contagia toda a equipe e afasta o Grêmio das conquistas. O Tcheco do sr. Bonatto é um anti-Midas, um tipo malquisto por Deus e pelos homens, um perseguido pela má sorte. Um verdadeiro inimigo público.

O sr. Bonatto é definitivo: “Sua permanência no Olímpico não é mais possível pelo simbolismo que adquiriu de um time, uma atitude, uma postura e uma forma de comportamento que não podem continuar iguais”.

Mais:

“Não. Não há nada definido neste sentido. Apenas especulações da imprensa e interpretações das palavras do próprio Tcheco. Mas já vou me despedindo do capitão. Não há como pensar em uma reformulação de verdade no time do Grêmio com a manutenção do Tcheco.”

O que sr. Bonatto pede é que mandemos esse símbolo de “um time, uma atitude, uma postura e uma forma de comportamento que não podem continuar iguais” embora de uma vez. Não explica de qual time, de qual atitude, de qual postura e de qual forma de comportamento está falando. Talvez se refira ao Tcheco que, no intervalo do jogo contra o Cruzeiro, quando tudo estava perdido, disse que iria jogar para lavar a honra da torcida; ou do Tcheco que recusou os milhões dos árabes e preferiu satisfazer o seu desejo (e o da torcida) de jogar no Grêmio; ou do Tcheco que aceitou vir para o Grêmio em 2006, quando recém saímos da Segundona e ninguém – repito: ninguém – queria vir jogar em um clube falido e com um ano muito pouco promissor; ou do Tcheco que garantiu pelo menos duas vezes, de forma decisiva, a classificação do Grêmio para as finais da Libertadores de 2007; ou do Tcheco que tantas vezes entrou em campo sem as devidas condições físicas, porque o Grêmio precisava dele; ou do Tcheco que foi tantas vezes expulso porque, ao contrário de muitos, “profissionais”, ele não conseguiu controlar-se, não conseguiu ser profissional, não conseguiu manter-se frio diante do roubo descarado, da vigarice, da trama e dos inimigos do Grêmio. O Tcheco que fez tudo o que nós, cada um de nós, verdadeiros e apaixonados torcedores, faríamos no lugar dele. Deste Tcheco – diz o sr. Bonatto – não precisamos mais.

Diante de tanta sandice, tanta injustiça, tanta barbaridade escrita por alguém que tem o poderio das Organizações Globo a seu favor para dizer e fazer acontecer, talvez fosse fácil escrevermos um texto daqueles cheios de melancolia, de amargura, de indignação contra uma injustiça cometida. Seria fácil dizermos que o pobre Tcheco não merece receber em cima de si tantas asneiras ditas por um so-called gremista. Não o faremos. O post do Sr. Bonatto já é cheio de melancolia – de falsa melancolia, fabricada, de plástico, desvinculada da realidade e do momento – e não precisamos disso no momento. O sr. Bonatto talvez goste da saudável atividade de chorar no cantinho. O Grêmio – o meu Grêmio, o de Tcheco, o do Souza, o do Herrera e de tantos outros – não pode se dar ao luxo de ficar chorando no cantinho. Temos um Brasileirão inteiro para ganhar – e para ganhar, é preciso confiança, espírito de grupo e senso coletivo, e não aquela busca por bodes expiatórios tão típica dos fracos em momentos de crise.

Fica, Tcheco.

Vai, Bonatto. Por qualquer porta, dos fundos, da frente ou do porão. Mas vai.

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